Bolsonaro, a propaganda do desserviço

Apesar de se autoproclamar liberal, Bolsonaro inside em praticamente todas as críticas liberais, a exemplo da recente intromissão em assuntos internos de empresas públicas, como publicidade e propagada, se enquadrando em censura e autoritarismo. Intervenções do estado se justificam única e exclusivamente quando feitas de forma técnica e em situação de inescusável necessidade, o que nitidamente não é o caso, já que não passa de uma interferência política e nenhuma necessidade justificaria a censura, aparelhamento do estado ou da mídia, dadas as propensões à dominação.

São finalidades do estado: defender e garantir a liberdade individual, com responsabilidade; mediar e conciliar conflitos; integrar a sociedade; coordenar a prevenção/resolução de injustiças e problemas sociais; prover serviços essenciais de qualidade; abster-se das questões em que não há consenso entre a população, focando naquilo que é comum e do interesse de todos. Se em dia com as referidas obrigações e com sobra de capacidade administrativa, o que não é o caso do Brasil, o estado até poderia discutir alternativas como a composição de empresas estatais ou o exercício de novas atividades econômicas. Então, na atual conjuntura, para quê estado grande e repleto de tentáculos senão para cabide de emprego, negociatas por apoio político, laboratório de censura e incubadora de autoritarismo?!

Bolsonaro presta um desserviço tão grande que, com razão, acaba servindo de palanque para a oposição, uma esquerda que nem reformada é. Com isso, vemos uma contradição, que é o fato, nos levar a outra: uma oposição que quer estado grande e insiste em “regulamentar os meios de comunicação” – em outras palavras, censura – reclamar dos erros que ela comete por vocação. A “quëstão” mais importante não era derrotar a já derrotada esquerda, mas escolher um candidato mais capacitado e melhor intencionado que aqueles que já tivemos. No entanto, como de costume, brasileiros falham recorrentemente nas urnas.

Defesa aos verdadeiros liberais

Liberais parecem insensíveis, mas, diferente de seus concorrentes, exploram a razão em vez da emoção. Seria ridículo atribuir a um indivíduo culpa social, histórica ou dever divino usando da retórica para capturá-lo pelo sentimento, tornando-o um súdito, um comandado. Liberais também parecem indiferentes, já que não compartilham uma vida boêmia com alguém só por afinidade ideológica. Contudo, ao contrário dos concorrentes, valorizam as diferenças sem usá-las para segregar. É digno de pena quem explora as especificidades das pessoas para submetê-las a um juízo grupal que expropria as virtudes e identidade de grupo daqueles que se atrevem a discordar.

Liberais parecem desanimados, e não é para menos. É difícil prosperar fazendo uso da razão enquanto a mesma é parte dormente na maioria dos indivíduos. É difícil alcançar resultados utilizando as capacidades das pessoas, que são intencionalmente tolhidas pelos concorrentes. É difícil inspirar com leituras realistas do mundo enquanto há tantas romantizações, idealizações e projetos de dominação travestidos de reparação do mundo. É difícil reconhecer e contrabalancear a falibilidade e questionabilidade de cada um enquanto os demais partícipes só querem controlar, neutralizar ou exterminar um ao outro, ou um mais que o outro.

Por fim, os liberais parecem distantes, já que são corriqueiramente ironizados por uma autoproclamada elite intelectual, devido a um suposto desconhecimento das bibliografias concorrentes. Liberais, porém, veem livros como instrumentos, em vez de se verem como instrumentos dos livros. Coisa boba, mas que estabelece um abismo de distância. Assim, fica evidente a explicação para cada ressalva alheia acerca dos verdadeiros liberais: é só mais um sofisticado e retórico desdobramento do ponto de vista dos dominantes, dos oligopólios e dos cartéis, contra os quais o Liberalismo foi concebido e aperfeiçoado como solução.