Defesa aos verdadeiros liberais

Liberais parecem insensíveis, mas, diferente de seus concorrentes, exploram a razão em vez da emoção. Seria ridículo atribuir a um indivíduo culpa social, histórica ou dever divino usando da retórica para capturá-lo pelo sentimento, tornando-o um súdito, um comandado. Liberais também parecem indiferentes, já que não compartilham uma vida boêmia com alguém só por afinidade ideológica. Contudo, ao contrário dos concorrentes, valorizam as diferenças sem usá-las para segregar. É digno de pena quem explora as especificidades das pessoas para submetê-las a um juízo grupal que expropria as virtudes e identidade de grupo daqueles que se atrevem a discordar.

Liberais parecem desanimados, e não é para menos. É difícil prosperar fazendo uso da razão enquanto a mesma é parte dormente na maioria dos indivíduos. É difícil alcançar resultados utilizando as capacidades das pessoas, que são intencionalmente tolhidas pelos concorrentes. É difícil inspirar com leituras realistas do mundo enquanto há tantas romantizações, idealizações e projetos de dominação travestidos de reparação do mundo. É difícil reconhecer e contrabalancear a falibilidade e questionabilidade de cada um enquanto os demais partícipes só querem controlar, neutralizar ou exterminar um ao outro, ou um mais que o outro.

Por fim, os liberais parecem distantes, já que são corriqueiramente ironizados por uma autoproclamada elite intelectual, devido a um suposto desconhecimento das bibliografias concorrentes. Liberais, porém, veem livros como instrumentos, em vez de se verem como instrumentos dos livros. Coisa boba, mas que estabelece um abismo de distância. Assim, fica evidente a explicação para cada ressalva alheia acerca dos verdadeiros liberais: é só mais um sofisticado e retórico desdobramento do ponto de vista dos dominantes, dos oligopólios e dos cartéis, contra os quais o Liberalismo foi concebido e aperfeiçoado como solução.